Universidade dos Sonhos
26/04/2005 11:08
Revista da Folha
"Os Estados Unidos são o país das listas e dos prêmios, não necessariamente nessa ordem. Na falta do caráter reflexivo e interpretador dos europeus, esse povo de imigrantes enumera, compartimenta, prioriza, classifica e dá uma estatueta no final. Um pesquisador (esse é também o país das pesquisas, mas por outro motivo: muito dinheiro e tempo disponíveis) calculou que a cada dois dias um prêmio é entregue a alguém da indústria do entretenimento. A continuar nesse ritmo, em poucos anos todos os atores, diretores, músicos, escritores e dançarinos norte-americanos terão um, de preferência dourado, jogado em algum lugar da estante de casa.
Assim, não causa surpresa o frenesi que acompanha a divulgação da lista anual das melhores universidades norte-americanas segundo a ""US News & World Report"", ironicamente ela própria a eterna terceira colocada entre as revistas semanais de informação, conhecida apenas por sua tendência à direita no noticiário e por essa lista. Todos os anos, Stanford, Harvard e Yale brigam pelo primeiro lugar em geral e em algumas categorias específicas, como em ""melhor escola de MBA"", ""melhor faculdade de direito"" e assim por diante. Neste ano, deu Stanford em primeiro como ""universidade dos sonhos segundo os pais"", na frente como ""melhor ambiente para hispânicos"", entre as cinco como ""universidades dos sonhos segundo os estudantes"" etc. etc. Mas nem sempre foi assim. Durante o boom da internet, a instituição caiu tremendamente entre as melhores universidades de tecnologia, o que era uma incongruência, já que nove entre dez pontocom sendo criadas então, como a Google, vinham daqui, o celeiro do Vale do Silício por excelência.
Em 2000, Stanford chegou mesmo a sair da lista das dez mais, e então o alerta vermelho foi acionado. Um novo reitor (presidente, na nomenclatura acadêmica norte-americana) acabara de assumir a universidade e resolveu investigar o que causara a tremenda queda. Quem conta a história é Maggie Neale, autora de diversos livros sobre negociação, durante aula na semana passada na Graduate Business School -e ela própria ficou encarregada da investigação.
Bastou um mês para saber o que acontecera. A lista da ""US News"" tem como fontes principais os estudantes e os professores, obviamente, mas também os recrutadores, que são os enviados das grandes empresas aos últimos anos dos cursos, para que estas contratem os melhores alunos, que teoricamente virarão os melhores profissionais em suas áreas.
Pois vinham dos recrutadores as piores avaliações sobre Stanford. Por quê? ""Os alunos daqui são muito arrogantes"", foi a resposta que Maggie mais ouviu.
Um deles chegou a classificá-los como ""aqueles moleques de pouco mais de 20 anos que entram em nossas salas com ar displicente, uma bolsa de tacos de golfe no ombro, vestindo bermudas e tênis e disparando: 'Quanto você tem para me pagar por ano?'."" Imagine a cena. Agora, lembre-se que nessa época havia sete ofertas de emprego para cada aluno que estava se formando na Business School de Stanford, cinco para cada aluno da escola de tecnologia e assim por diante.
Corte para 2002. A bolha da internet explodiu, milhares de pontocom fecharam, muita gente perdeu muito dinheiro e agora há ""apenas"" dois empregos sendo oferecidos em média para cada recém-formado de Stanford nessas duas áreas específicas. Pois a universidade dispara rumo ao topo e volta a aparecer entre as melhores da ""US News"". O motivo? Maggie explica: os alunos vão às entrevistas interessadíssimos, bem-vestidos, são classificados como ""humildes"" pelos recrutadores, que melhoram a avaliação geral. Moral da história: é o ambiente que molda a personalidade, e não o contrário, como gostamos de pensar. "