Mauro Kreuz
Presidente da Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração - ANGRAD
A Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração (ANGRAD) tem por objetivo promover a permanente elevação do padrão de qualidade do ensino da Administração. A ANGRAD congrega mais de 800 instituições de ensino superior no Brasil, representadas pelo Diretor, Coordenador e Professores dos cursos de Administração.
A Associação existe desde 1991, possui representações em todos os Estados e no Distrito Federal, e sua sede é na cidade do Rio de Janeiro.
1. Philip Kotler, prestigiado consultor americano, afirma que “Turbulência, caos, riscos, incerteza é agora a nova normalidade para as organizações.” As faculdades de Administração brasileiras estão preparando os alunos para esse mundo instável?
Mauro Kreuz – Tenho dúvidas quanto à possibilidade de se preparar alguém em apenas quatro ou cinco anos, seja no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, para um ambiente de negócios caracterizado pela complexidade e incerteza. Na graduação, é possível construir um sólido alicerce de conhecimentos profissionais, embora gerais e básicos. O aprofundamento acontece em um processo de preparação continuada, como especialização, MBA, mestrado, doutorado, além dos programas de educação corporativa.
Percebo que os cursos de Administração têm se empenhado para elevar o padrão da qualidade do ensino oferecido, minimizando as disparidades que ainda se observam no contexto da diversidade brasileira.
2. Pelo número de reclamações apresentadas aos PROCON de todo o País, e mesmo pelos serviços que recebemos de muitas empresas, fica difícil acreditar que as organizações realmente têm “foco no cliente”. Não é responsabilidade das faculdades de Administração garantir a qualidade dos produtos e serviços oferecidos no mercado, mas o que poderia ser feito nas escolas para, pelo menos, combater essa produção de discursos, tão distantes da realidade, sobre a importância do cliente?
Mauro Kreuz – Entendo que o esforço dos cursos de Administração é o de preparar profissionais que possam ser responsáveis socialmente e competentes organizacionalmente.
A qualidade dos produtos e serviços está atrelada a diversos atributos organizacionais que fogem da ação direta do administrador, e nos quais ele, na maioria dos casos, não tem como inferir. E é nesse paradoxo profissional que surge a maioria dos dilemas éticos do administrador. Os cursos de Administração têm debatido essas questões que envolvem o cliente e a sua importância na construção dos resultados organizacionais, e há vários componentes curriculares direcionados para atender a esse objetivo.
3. Muitas empresas alteraram o nome do antigo Departamento de Pessoal ou de Recursos Humanos para “Gestão de Pessoas” ou “Gestão de Gente”, e passaram a chamar o trabalhador de “colaborador”. Além das mudanças de nomenclatura, que é fácil de se fazer, pode-se dizer que as pessoas estão sendo mais bem cuidadas hoje nas organizações?
Mauro Kreuz – Apesar de ainda existirem práticas inadequadas, percebe-se uma grande preocupação no tocante ao cuidado com as pessoas nas organizações. É inquestionável a evolução profissional da área de Administração de Pessoas, especialmente quanto ao refinamento conceitual e técnico.
As organizações estão reconhecendo que compreender as pessoas e cuidar bem delas nos ambientes corporativos é uma questão estratégica, com desdobramentos de natureza competitiva, e se dando conta de que existe uma relação direta entre os resultados e a forma de administrar as pessoas envolvidas na construção desses resultados.
4. As faculdades de administração estão promovendo o desenvolvimento da consciência dos jovens estudantes para a responsabilidade socioambiental das organizações?
Mauro Kreuz – Ao examinar as Diretrizes Curriculares Nacionais de Administração, em especial as aptidões profissionais que caracterizam o perfil dos egressos, percebe-se um adequado direcionamento para a gestão equilibrada das dimensões transversais do ecossistema - empresas, sociedade e meio ambiente -, rompendo assim com o paradigma vigente e ultrapassando as fronteiras quantitativas que sempre nortearam, quase que exclusivamente, a administração dos resultados das organizações.
5. Noel Rosa, conhecido sambista carioca do século passado, dizia que “ninguém aprende samba no colégio”. As faculdades de gestão da Europa sabem que, ao contrário do samba, a dinâmica do processo decisório pode ser estudada nas escolas, e que podemos aprender a tomar decisões lógicas. Com raríssimas exceções, não vemos disciplinas com esse conteúdo nas faculdades brasileiras. Como o senhor vê essa situação, uma vez que tomar decisões é a principal função de um administrador?
Mauro Kreuz – Um ambiente de negócios cada vez mais internacionalizado e competitivo tem levado à profissionalização da gestão. Não existe mais espaço para amadores. Como consequência, observa-se maior rigor quanto à qualidade dos cursos de Administração. Nesse sentido, algumas fraquezas ficam evidenciadas. A Resolução 04/2005 do MEC, que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais de Administração, em seu artigo quarto, faz referência à obrigatoriedade dos cursos de desenvolver, pelo menos, oito competências e habilidades. A primeira competência diz respeito à “capacidade de exercer em diferentes graus de complexidade o processo de tomada de decisões”. Por sua vez, a quarta competência faz referência à obrigatoriedade de “desenvolver raciocínio lógico, crítico e analítico para operar com valores e formulações matemáticas presentes nas relações formais e causais entre fenômenos produtivos, administrativos e de controle, expressando-se de modo crítico e criativo diante dos diferentes contextos organizacionais e sociais”. Em síntese, os cursos de Administração precisam rever a sua lógica pedagógica e seu processo educacional, para que possam ser mais efetivos no desenvolvimento das competências e habilidades exigidas pela Resolução 04/2005 e demandadas pelo mercado.
6. Passados quase 100 anos da obra de Fayol sobre as funções administrativas (planejar, organizar, dirigir, coordenar e controlar) administradores brasileiros, públicos e privados, continuam a ter dificuldades com planejamento e controle. Será que os cursos de Administração não estariam privilegiando disciplinas mais atraentes e até mais fáceis para os alunos, com prejuízo do desenvolvimento de competências fundamentais para o gestor?
Mauro Kreuz - As Diretrizes Curriculares Nacionais de Administração contemplam o que deve ser ensinado e aprendido nos cursos de Administração, para que os seus egressos tenham as competências fundamentais requeridas pelo mercado de trabalho. O processo educacional em Administração não pode mais estar focado em desenvolver e avaliar conteúdos, como se eles fossem a razão e o fim em si mesmos. O foco deve estar no desenvolvimento das competências, utilizando-se dos mais variados conteúdos. E a avaliação deve estar centrada nas competências desenvolvidas. Estou convicto de que assim não teremos mais anomalias nos cursos de Administração, como essa apontada na questão acima.
7. Em junho deste ano, o mundo assistiu ao lançamento de mais um trem-bala na China, ligando Pequim e Xangai. A linha de 1.300 km foi construída em pouco mais de 30 meses. Mesmo considerada a profunda diferença cultural, histórica e política entre chineses e brasileiros, cabe uma reflexão sobre a dificuldade de nossos gestores de conduzirem obras públicas nos prazos e dentro dos orçamentos. O que as faculdades de Administração podem fazer para qualificar a gestão da coisa pública?
Mauro Kreuz – Além dos valores e da cultura que podem nos diferenciar em relação ao exemplo citado, assim como das competências conceituais, humanas e técnicas, estou convencido de que essa questão envolve vontade e responsabilidade política e administrativa, e consciência das implicações éticas das ações e decisões do administrador público perante a sociedade à qual ele serve. A qualificação técnica e ética da gestão da coisa pública é trabalhada nos cursos de Administração, por isso não acredito que possa existir algum gestor público brasileiro que desconheça o que é devido ou indevido no trato da coisa pública. O cerne desse problema não está no campo conceitual e técnico da Administração, mas na impunidade e num perverso e contaminado contexto político que se autoimuniza, preserva e defende com variados instrumentos legais e pretextos de argumentação social, tornando a gestão pública de duvidosa efetividade.
8. Temos no Brasil mais de 1 milhão de pessoas cursando Administração em cerca de 1.700 faculdades. A ANGRAD acredita que, de todas essas instituições, sairão administradores com formação qualificada para atender as demandas de um mercado de trabalho cada vez mais exigente?
Mauro Kreuz – Nunca tivemos um mercado tão promissor para profissionais em Administração. O paradigma pedagógico vigente, porém, está obsoleto e precisa ser substituído por um modelo inovador, inteligente e ousado. A ANGRAD tem proporcionado um ambiente fértil aos cursos de Administração para que troquem experiências e discutam sobre a qualidade do ensino, sinalizando para a necessidade de revermos a lógica pedagógica que tem ancorado os projetos pedagógicos. Não é tarefa fácil, num país continental e com tanta diversidade, atingir um padrão de qualidade nacional. Estamos evoluindo de forma gradual, mas consistente.
A capacitação profissional em Administração é um processo contínuo e essa máxima também vale para os cursos que são responsáveis por preparar administradores.
Revista Ideias em Gestão
Edição nº7 - Novembro 2011