15 de março de 2012

REVISTA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO - O Administrador do século XXI

Por Tânia Mendes e João Humberto de Azevedo, REVISTA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO

O Administrador do século XXI - Pesquisa nacional mostra os caminhos trilhados pelo Administrador e desvenda o universo dos profissionais da área. 

Renda mensal entre três e dez salários mínimos, casado, formado em instituições de ensino superior privadas, com especialização em alguma área de Administração, empregado no setor privado em empresas de grande porte ou órgãos públicos, em posição funcional de gerente ou analista, dedica a maior parte do tempo do trabalho na administração geral ou financeira e realiza, além da atividade principal, serviços de consultoria ou leciona em uma IES: este é o perfil médio do profissional de Administração, identificado na quinta edição da pesquisa nacional “Perfil, Formação, Atuação e Oportunidades de Trabalho do Administrador”, realizada pelo Conselho Federal de Administração (CFA), e com apoio dos Conselhos Regionais de Administração (CRAs) e a Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração (Angrad), em parceria com Fundação Instituto de Administração (FIA/USP).

“Esta foi uma das maiores pesquisas, se não a maior realizada por meio da internet no Brasil.Em função das tecnologias adotadas, os resultados da Pesquisa 2011 estão publicamente disponíveis no site http://pesquisa.cfa.org. br/grep/  e podem ser acessados por estado, região ou total para cada população pesquisada”, explica o Adm. Fauze Najib Mattar – Coordenador da Pesquisa pela FIA. Nagib considera que uma pesquisa com essas dimensões exigiu um planejamento, tanto metodológico quanto operacional, bastante meticuloso e, para isso, de muito valeu a experiência acumulada pela FIA e pela equipe da pesquisa com a realização das pesquisas anteriores de 2003 e 2006 para o CFA. “Apesar de sua complexidade, não ocorreu nenhuma dificuldade relevante, pois contamos com importantes cooperações do CFA e dos CRAs na divulgação da pesquisa e no fornecimento dos cadastros de Administradores e Empresas, além da Angrad, na divulgação e fornecimento de listagens de Coordenadores de Cursos de Graduação em Administração no Brasil”, acrescenta. 

De acordo com Nagib, a metodologia da pesquisa vem se consolidando a cada edição. “Na verdade, foram realizadas pequenas mudanças na pesquisa de 2011 em relação às anteriores”, diz Fauze Nagib. Ele explica ainda que, além da atualização dos questionários com questões relevantes para o momento atual da profissão de Administrador e da utilização dos mais atualizados recursos de informática e de teleinformação, houve a importante mudança de ponderar os resultados obtidos em cada estado para chegar aos resultados por região e total do Brasil. 

Para Nagib, poucos resultados surpreenderam a equipe da pesquisa. “As previsões apresentadas na Pesquisa de 2006 se confirmaram, tanto em relação à formação acadêmica do Administrador, quanto ao seu perfil, atuação profissional mais reconhecida pelos empregadores e oportunidades de trabalho, sempre crescentes diante de outros profissionais”, completa Nagib.

“Apesar da maioria dos administradores que responderam a pesquisa pertencerem ao sexo masculino, o estudo revelou que o número de mulheres graduadas nesta área configurou aumento substancial de 67%, em relação ao primeiro estudo realizado em 1994”, explica o Adm. José Samuel de Miranda Melo Júnior, Coordenador da Pesquisa e Diretor de Formação Profissional do CFA. 

O estudo traçou também as características de Coordenadores/ Professores e de Empresários/ Empregadores das áreas de Administração. Os Coordenadores/ Professores têm idade média de 44 anos, são do sexo masculino, casados e têm graduação em Administração em IES privadas. Por outro lado, os Empresários/ Empregadores exercem a presidência ou são proprietários de empresas da área de serviços ou do comércio varejista, com predominância de micro, pequenas empresas (MPMEs). “Esta pesquisa quebrou alguns paradigmas. Por exemplo, esperávamos que grande parte empresários pertencessem conglomerados. Entretanto, estudo apontou um significativo do Administrador atuando nas MPMEs. importante, principalmente redirecionar as matrizes curriculares dos cursos de Administração, que privilegiam questões relacionadas aos megaempreendimentos”, enfatiza o Coordenador. 

Como nas edições anteriores, esta pesquisa foi dirigida a três segmentos ou públicos-alvo: administradores, Coordenadores/ Professores e Empresários/Empregadores. De todos os questionários preenchidos, após validação do material, em que foi descartado os incompletos ou que apresentaram outros problemas, foram computados 21.117 respondentes à pesquisa de 2011. “Temos certeza de que o objetivo da pesquisa de reanalisar cenários e identificar tendências para a profissão do Administrador no país foi plenamente alcançado. Afinal, o número de questionários válidos superou em mais de 100% os da última pesquisa realizada em 2006, proporcionando informações que servirão de base para, entre outras coisas, direcionar o planejamento estratégico de instituições que de alguma forma operam na área do profissional de Administração”, comemora o Adm. José Samuel. 

Para desenvolver o estudo, os pesquisadores contaram com o apoio de grande número de pessoas e instituições. “É importante ressaltar a colaboração irrestrita das Instituições de Ensino Superior, e as empresas que participaram da fase qualitativa da pesquisa: Ford, Wal-Mart, BR Distribuidora, TAM, Thomas Case e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Administradores, Coordenadores/Professores e Empresários/Empregadores também participaram de entrevistas, reuniões e responderam aos questionários da pesquisa”, como ressalta o presidente do CFA, Adm. Sebastião Luiz de Mello. 


Escolha do curso

A formação generalista e abrangente – 25,18% de respostas – foi a principal motivação que influenciou a escolha do curso. O Adm. Mauro Kreuz, presidente da Angrad, acredita que o ecletismo da profissão permite que o Administrador tenha, na graduação, uma sólida e consistente preparação profissional. “Além disso, o curso permite várias especialidades, mediante aprofundamentos específicos, todas muito requeridas pelas organizações públicas e privadas”, acrescenta Kreuz. Ele destaca que, apesar desta disciplina permitir várias linhas de preparação profissional específicas, todas elas se nutrem e se sustentam na mesma ciência, a Administração, única e indivisível. E completa: “Observo que vários programas de graduação na área não desenvolvem suficientemente a dimensão quantitativa, o que gera sequelas profissionais que poderão se transformar em desvantagens competitivas em relação a outros profissionais”. 

Por outro lado, existência de um amplo mercado de trabalho – apontada por 20,52% dos entrevistados – foi o segundo motivo da escolha do curso. O Adm.Leandro Vieira, diretor do Portal Administradores e Publisher da Revista Administradores se diz convencido de que esta profissão está cada vez mais em evidência. “É reflexo de diversos fatores, como o fortalecimento da economia, aumento no número de empresas e a relevância do Brasil no cenário mundial. Entretanto, o que mais me anima é que se observa um processo de mudança de mentalidade em nossa sociedade, que tem enxergado cada vez mais a necessidade de uma gestão profissional dos negócios. Isso se reverte em benefícios para todos e muita gente já se deu conta de que o profissional mais completo e mais adequado para cumprir esse papel é o Administrador”, observa. 

A elevada e consistente demanda pelo curso e pelo profissional de Administração é sinal claro na busca por uma melhor gestão profissional em todas as dimensões, sejam elas organizacionais, sociais, públicas ou privadas. “A sociedade está indicando, de forma inequívoca, que não suporta mais amadores administrando organizações públicas e privadas”, diz Kreuz e acrescenta que o mercado para profissionais em Administração, nunca esteve tão promissor. 

Esta é também a visão do Adm.Eduardo de Souza Ramos, presidente do Conselho de Administração da Mitsubishi Motors do Brasil. Ele acredita que a expansão do mercado de trabalho no país é fator importante na escolha profissional: “Afinal, a economia como um todo vem crescendo rapidamente nos últimos anos, o que proporciona uma grande oferta de trabalho para Administradores”. Uma das opções oferecidas no estudo – a vocação, que na pesquisa de 2006 havia sido preterida no momento de escolher o curso (14,08%, em 2003 e 15,81%, em 2006) – apresentou crescimento significativo e atingiu 18,72%, em 2011. “O tema merece atenção dos responsáveis pela divulgação e disseminação dos conceitos sua importância para as empresas”, destaca Eduardo.

Os profissionais pesquisados, que concluiram o curso presencial nos últimos cinco anos em instituições privadas, avaliam que o curso atendeu satisfatoriamente e completamente às suas expectativas (84,86%) e muito poucos consideraram que não atendeu (0,81%). Grande parte (75,20%) fez especialização, incluindo MBA, ou outra pós-graduação. Segundo o Adm. Leandro Vieira, autor do livro “Seu futuro em Administração, além do diploma e dos conhecimentos técnicos, outras exigências são impostas, atualmente, para que o administrador possa vencer no mercado de trabalho. “Como os estilos de liderança e administração variam de pessoa para pessoa, vou me concentrar em duas características essenciais. Primeiramente, o Administrador deve saber como ninguém transformar o conhecimento em ação. Parece um enunciado simples, mas saber fazer a ponte entre teoria e prática é uma habilidade dificílima de ser desenvolvida, pois é muito fácil perder-se entre tantas teorias e menosprezar a prática, e igualmente fácil desprezar a teoria valorizando apenas a prática. Outra característica fundamental, evidenciada por Peter Drucker, é ser capaz de tomar decisões de maneira eficaz, sabendo concentrar-se naquelas realmente importantes”. 

Os cursos de especialização nesta área continuam os preferidos.A pesquisa demonstrou isso: entre os que afirmaram ter concluído outro curso, 54,68% optaram por especialização em Administração. “O registro no CRA é a credencial legal que poderá permitir a inserção do Administrador no mercado de trabalho. Mas serão as efetivas competências que emanam dele que irão permitir a permanência ou não deste profissional neste mercado”, pondera Kreuz. 


Renda média

“O leque aberto pela Administração é bastante amplo. Como o mercado está aquecido, todas as áreas relacionadas, como marketing, finanças, gestão de projetos e logística, contam sempre com uma boa demanda. Especializações nessas áreas são sempre uma boa pedida”, considera Leandro Vieira. Na opinião do Adm. Eduardo Ramos, presidente da Mitsubishi, os setores onde existem maior falta de Administradores são as áreas de marketing comercial e logística. A pesquisa de 2011 confirma parte dessa opinião: o somatório das quatro grandes áreas funcionais – administração geral, finanças, vendas e recursos humanos – ultrapassou 58% do total das respostas dos entrevistados. 

Por se tratar de um profissional com visão sistêmica da organização, articulador de suas diversas áreas e pronto para o exercício da liderança, formando e motivando pessoas e equipes de trabalho, o Administrador apresenta grande índice de empregabilidade e é um profissional com bom nível de renda individual. De acordo com a pesquisa de 2011, esta renda ficou na faixa entre 3 e 10 salários mínimos (SM). Além disso, ele faz parte da categoria mais promissora no mercado de trabalho brasileiro. “Mas, se considerarmos os pontos médios das faixas e o número de respondentes em cada uma, a renda média apurada foi de 9,75 SM, ou R$5.313,75, considerando o salário mínimo de 2011”, como assinala o Adm. Samuel Melo. 

A pesquisa identificou as principais competências desses profissionais: identificação deproblemas, formulação e implantação de soluções; habilidades: relacionamento interpessoal, visão do todo e o seu preparo para a liderança; e atitudes: comprometimento, comportamento ético e profissionalismo. Assim, em meio a tantas oportunidades e perspectivas, o desempenho dos administradores tem sido bem avaliado ao longo do tempo, em comparação a outros profissionais. Constata-se que no exercício diário do trabalho, eles têm apresentado desempenho acima dos demais profissionais. 

O fator tempo de profissão tem correlação direta com a evolução na carreira, como indica a pesquisa. Assim é que entre os administradores que se graduaram em período anterior a 1969, a posição funcional mais frequente é a de presidente/empresário, seguida de assessoria e de gerência. Leandro Vieira avalia que, além do tempo de experiência, existem outros fatores que contribuem para acelerar a progressão na carreira. “Gosto muito do que os orientais chamam de mente de principiante. Só conseguimos evoluir quando reconhecemos que temos muito ainda a aprender. É o mesmo conselho dado por Steve Jobs em seu famoso discurso stay hungry, ou seja, permaneça faminto. Acredito que somente essa postura abre espaço para o verdadeiro crescimento pessoal e profissional”. 

Na avaliação do curso de graduação concluído, a maioria dos administradores afirma que ele atendeu satisfatoriamente às suas expectativas. “Apesar de, na fase qualitativa da pesquisa, por ocasião das reuniões de grupo, ficar claro que os cursos de Administração devem estabelecer uma maior aproximação do mercado, pois possuem uma visão muito acadêmica, administradores reconhecem que eles têm atendido às forma completa satisfatória”, considera o Pesquisa, Adm. Em razão das existentes entre as Instituições Superior (IES) e o demanda o mercado relação ao recém-formado, Coordenadores/ Professores, sugeriram lista de novos conteúdos, sendo desenvolvimento do gestão ambiental e desenvolvimento sustentável, gestão pública, criatividade e inovação, gestão da micro e pequena empresa. Não é sem razão que o tema “desenvolvimento do empreendedorismo” tenha sido sugerido pela maioria dos Coordenadores/ Professores na lista de novos conteúdos. Leandro Vieira
é categórico ao afirmar que esta área é uma boa alternativa para profissionais de Administração. “Sem dúvida, o empreendedorismo não é apenas uma excelente alternativa, mas um importante caminho a ser trilhado para impulsionar o crescimento do país. Entretanto, independentemente de montar um novo negócio ou não, o Administrador deve ser dotado de forte espírito empreendedor. Espero não parecer repetitivo por citar novamente Drucker, mas o ‘pai da Administração moderna’ disse certa vez que tentar dissociar a Administração do empreendedorismo seria o mesmo que dizer que a mão do violinista que dedilha as cordas e a mão que comanda o arco são adversárias ou mutuamente exclusivas”. 


Áreas promissoras

O destaque em relação ao mercado de trabalho, segundo a pesquisa, é o setor de serviços, que deverá proporcionar maiores oportunidades de trabalho, principalmente nas áreas de consultoria empresarial, hotelaria e turismo,lazer e entretenimento, saúde e instituições financeiras. Vale ressaltar que a Administração Pública Indireta (35,44%) e a Direta (32,81%) foram eleitas como a segunda área mais promissora para a contratação de administradores. Em terceiro lugar ficou o setor industrial que, na opinião dos Empresários/Empregadores, deverá contratar mais administradores nos próximos anos. 

Na pesquisa atual, ao contrário das anteriores, a maioria afirma que para exercer função gerencial, o profissional deve ser graduado em Administração. Os dados da pesquisa mostram uma evolução positiva, nos últimos nove anos, do conceito profissional do Administrador, diante dos desafios do mercado de trabalho e de sucessivas crises financeiras pelas quais passaram ou passam ainda os países e suas empresas. A comparação entre o desempenho do Administrador e de outros profissionais e a opção por contratar esses profissionais justificam o elevado índice dos que preferem o Administrador nas funções gerenciais de suas organizações. Mesmo os Empresários/ Empregadores que admitem o exercício de função gerencial por qualquer outro profissional exigem uma especialização em Administração. 

Apesar de apresentar um panorama altamente positivo, a fase qualitativa da pesquisa de 2011 descortinou várias situações que ameaçam a profissão do Administrador. Uma delas é a significativa incidência de profissionais submetidos à realização de atividades aquém de seu nível profissional e com salários aviltados, e outros de quem são solicitados trabalhos de alta complexidade sem a necessária contrapartida pecunária. Além disso, foram declarados indesejáveis casos de disfunções, principalmente pela dificuldade que alguns profissionais enfrentam para conseguir garantir espaços internos e identificar os externos. 

Uma preocupação que aparecia em outras pesquisas e permanece nesta é a existência do cargo de Gestor Público no serviço público federal, ocupado por pessoas de qualquer tipo de graduação, realizando atividades próprias do Administrador. Da mesma forma, funcionários dos três níveis de governo, rotulados como “Administradores Públicos”, continuam como um desajuste cultural que incomoda o exercício legal da profissão. 

Outro problema detectado na fase qualitativa da pesquisa foi a existência de um distanciamento entre o que ensinam as IES e o que necessita o mercado de trabalho com relação ao profissional recém-formado. Além disso, a pesquisa de 2011 procurou também descobrir informações sobre três temas importantes para o profissional de Administração: metodologias e materiais didáticos; educação a distância (EAD); e projetos de aperfeiçoamento. Com relação às metodologias e materiais didáticos, a evolução foi discreta: os professores continuam dando prioridade às metodologias expositivas combinadas com discussões em grupo, e os materiais didáticos continuam os usuais – livros, texto básico, apostilas. Houve tímida incursão em iniciativas que permitem avanços com a utilização da tecnologia da informação. Em relação aos cursos de EAD, a pesquisa constata a preocupação diante da grande expansão na oferta dos cursos e sua qualidade, tanto por parte dos administradores como dos Coordenadores/Professores.

Mais de 74% dos administradores já participaram de cursos de especialização e, em especial, na área de Administração, o que demonstraa necessidade de complementação do processo de graduação. Além disso, ficou patente que dominar um idioma estrangeiro – principalmente o inglês – confirma a tendência de que se trata de um facilitador para o desempenho de qualquer profissional. 

Esta pesquisa demonstrou que o Administrador não pode ficar parado no tempo e precisa se reciclar sempre. Para isso, Kreuz sugere: “Ter um projeto de vida profissional bem elaborado e com fundamentos estratégicos e buscar, de forma focada, determinada, organizada e disciplinada a sua autonomia intelectual, mediante programas de preparação profissional continuada, seja numa perspectiva vertical ou horizontal do conhecimento vinculado à Administração”.

 
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