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Jovens trocam livros pela pesquisa fácil na internet

"Artur de Andrade Soares, 15, 1º ano do ensino médio, como tantos outros jovens de sua idade, não quer perder tempo. Na hora de fazer trabalhos escolares que exijam a leitura de volumosos livros, ele não pensa duas vezes em procurar na internet a versão condensada de obras como Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, e Vidas Secas, de Graciliano Ramos. E o resultado, para surpresa dos conservadores, não é decepcionante. ""Dá para tirar nota melhor de quem leu a versão integral"", orgulha-se. Numa era movida a computadores e e-books (livros eletrônicos), muitos dos quais com versões resumidas de obras originais, as discussões sobre o hábito de leitura e de comprar livros parecem um tanto deslocadas. ""As cobranças sobre questões gramaticais perderam o foco de que a leitura é um ato de prazer e envolvimento. Literatura é arte antes da análise sintática"", destaca Gal Cavalcante, com formação em Letras, e atuando na Oficina e Consultoria em Literatura Asa da Palavra. A oficina tem como meta incentivar a leitura e a escrita através de diversas ações, dando prioridade ao texto literário. O baixo desempenho dos jovens em relação à leitura e à escrita tem preocupado os gestores públicos das políticas educacionais. Tanto que governantes da comunidade de países ibero-americanos elegeram 2005 o Ano Ibero-Americano da Leitura. O objetivo é fazer com que a leitura seja um dos principais focos das políticas públicas, questão amplamente discutida no Dia Mundial do Livro e do Direito Autoral, comemorado no dia 23. A iniciativa foi bastante elogiada, uma vez que a região exibe indicadores sofríveis quando o assunto é leitura. Para se ter uma idéia, no Brasil, cada pessoa lê, em média, 1,8 livro por ano. Enquanto isso, os franceses chegam a ler anualmente, em média, sete livros. Desenvolvendo projetos na rede pública municipal de Salvador e com jovens que cumprem medidas socioeducativas em Aracaju, entre outras atividades, a dirigente do Asa da Palavra, a psicóloga Lena Lois, ressalta a importância de contextualizar a leitura infanto-juvenil.
""Tive a recente experiência de um aluno que ganhou do pai o romance Tom Sawyer, de Mark Twain, mas confessou que o livro não dizia nada para ele"", conta. Esta é uma das principais pistas para quem deseja aplicar programas de incentivo à leitura: o jovem vai sempre fazer um paralelo entre a sua realidade e a apresentada no livro. ""O diálogo com a atualidade não pode deixar de existir. A poesia de Drummond pode não responder perguntas dessa época"", exemplifica Lena Lois. Ela acrescenta que não é contra o uso de obras adaptadas, uma vez que elas podem servir de porta de entrada para o mundo da leitura. ""Considero que uma das principais carências da escola é o momento da leitura, quando a professora, muito mais do que passar exercícios de leitura, lê e interage junto à classe"", diz.
Lena revela que, independentemente da classe social, os jovens de hoje preferem textos curtos, na forma de crônicas e que apresentem um timing acelerado. ""Por isso não considero as versões condensadas uma coisa essencialmente ruim"", coloca. No contexto dessa apressada realidade, a fruição da leitura perdeu espaço. ""A leitura exige que você se exile. Mas o jovem de hoje não quer ficar solitário, pois são grandes as demandas externas"", afirma Lena. Além de leitores sofríveis, os jovens escrevem superficialmente, diagnostica a psicóloga, para quem o trabalho de incentivo ao prazer literário deve incluir a discussão das personagens. Segundo o alemão Wolfgang Izer, criador da estética da recepção, o texto ficcional tem um vazio que será preenchido pelo leitor. ""São os conteúdos psicoemocionais desse leitor que preenchem esse vazio"", explica.
Marco simbólico da cultura
Não basta o Fome Zero. O Brasil já tem um programa chamado Fome de Livro, lançado como forma de mobilização pela Política Nacional do Livro, Leitura e Bibliotecas. O objetivo é aumentar em 50% o índice de leitura no País com o incentivo por parte do governo de editoras e livrarias. Entre as ferramentas voltadas à promoção do hábito de leitura, o Dia Mundial do Livro e do Direito Autoral, instituído em 1995 pela Unesco. Trata-se de uma data simbólica para a literatura mundial, uma vez que no dia 23 de abril de 1616, Cervantes, Shakespeare, cânones da literatura ocidental, e Inca Garcilaso de la Vega morriam.
É também a data de nascimento ou de morte de outros importantes autores, como Maurice Druon, K. Laxness, Vladimir Nabokov, Josep Pla e Manuel Mejía Vallejo. Por isso, a escolha da data não é um acaso para a Conferência Geral da Unesco, que procurou prestar tributo ao livro e autores, estimulando o indivíduo e, em particular, os jovens a descobrirem o prazer da leitura e renovarem a admiração pelas incomparáveis contribuições daqueles que aprofundaram o progresso social e cultural de humanidade. A celebração teve origem na Catalúnia, onde se festeja o Dia de São Jorge, quando uma rosa é tradicionalmente ofertada a cada comprador de livro.
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