Jovens trocam livros pela pesquisa fácil na internet
28/04/2005 09:43
A Tarde
"Artur de Andrade Soares, 15, 1º ano do ensino médio, como tantos outros jovens de sua idade, não quer perder tempo. Na hora de fazer trabalhos escolares que exijam a leitura de volumosos livros, ele não pensa duas vezes em procurar na internet a versão condensada de obras como Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, e Vidas Secas, de Graciliano Ramos. E o resultado, para surpresa dos conservadores, não é decepcionante. ""Dá para tirar nota melhor de quem leu a versão integral"", orgulha-se. Numa era movida a computadores e e-books (livros eletrônicos), muitos dos quais com versões resumidas de obras originais, as discussões sobre o hábito de leitura e de comprar livros parecem um tanto deslocadas. ""As cobranças sobre questões gramaticais perderam o foco de que a leitura é um ato de prazer e envolvimento. Literatura é arte antes da análise sintática"", destaca Gal Cavalcante, com formação em Letras, e atuando na Oficina e Consultoria em Literatura Asa da Palavra. A oficina tem como meta incentivar a leitura e a escrita através de diversas ações, dando prioridade ao texto literário. O baixo desempenho dos jovens em relação à leitura e à escrita tem preocupado os gestores públicos das políticas educacionais. Tanto que governantes da comunidade de países ibero-americanos elegeram 2005 o Ano Ibero-Americano da Leitura. O objetivo é fazer com que a leitura seja um dos principais focos das políticas públicas, questão amplamente discutida no Dia Mundial do Livro e do Direito Autoral, comemorado no dia 23. A iniciativa foi bastante elogiada, uma vez que a região exibe indicadores sofríveis quando o assunto é leitura. Para se ter uma idéia, no Brasil, cada pessoa lê, em média, 1,8 livro por ano. Enquanto isso, os franceses chegam a ler anualmente, em média, sete livros. Desenvolvendo projetos na rede pública municipal de Salvador e com jovens que cumprem medidas socioeducativas em Aracaju, entre outras atividades, a dirigente do Asa da Palavra, a psicóloga Lena Lois, ressalta a importância de contextualizar a leitura infanto-juvenil.
""Tive a recente experiência de um aluno que ganhou do pai o romance Tom Sawyer, de Mark Twain, mas confessou que o livro não dizia nada para ele"", conta. Esta é uma das principais pistas para quem deseja aplicar programas de incentivo à leitura: o jovem vai sempre fazer um paralelo entre a sua realidade e a apresentada no livro. ""O diálogo com a atualidade não pode deixar de existir. A poesia de Drummond pode não responder perguntas dessa época"", exemplifica Lena Lois. Ela acrescenta que não é contra o uso de obras adaptadas, uma vez que elas podem servir de porta de entrada para o mundo da leitura. ""Considero que uma das principais carências da escola é o momento da leitura, quando a professora, muito mais do que passar exercícios de leitura, lê e interage junto à classe"", diz.
Lena revela que, independentemente da classe social, os jovens de hoje preferem textos curtos, na forma de crônicas e que apresentem um timing acelerado. ""Por isso não considero as versões condensadas uma coisa essencialmente ruim"", coloca. No contexto dessa apressada realidade, a fruição da leitura perdeu espaço. ""A leitura exige que você se exile. Mas o jovem de hoje não quer ficar solitário, pois são grandes as demandas externas"", afirma Lena. Além de leitores sofríveis, os jovens escrevem superficialmente, diagnostica a psicóloga, para quem o trabalho de incentivo ao prazer literário deve incluir a discussão das personagens. Segundo o alemão Wolfgang Izer, criador da estética da recepção, o texto ficcional tem um vazio que será preenchido pelo leitor. ""São os conteúdos psicoemocionais desse leitor que preenchem esse vazio"", explica.
Marco simbólico da cultura
Não basta o Fome Zero. O Brasil já tem um programa chamado Fome de Livro, lançado como forma de mobilização pela Política Nacional do Livro, Leitura e Bibliotecas. O objetivo é aumentar em 50% o índice de leitura no País com o incentivo por parte do governo de editoras e livrarias. Entre as ferramentas voltadas à promoção do hábito de leitura, o Dia Mundial do Livro e do Direito Autoral, instituído em 1995 pela Unesco. Trata-se de uma data simbólica para a literatura mundial, uma vez que no dia 23 de abril de 1616, Cervantes, Shakespeare, cânones da literatura ocidental, e Inca Garcilaso de la Vega morriam.
É também a data de nascimento ou de morte de outros importantes autores, como Maurice Druon, K. Laxness, Vladimir Nabokov, Josep Pla e Manuel Mejía Vallejo. Por isso, a escolha da data não é um acaso para a Conferência Geral da Unesco, que procurou prestar tributo ao livro e autores, estimulando o indivíduo e, em particular, os jovens a descobrirem o prazer da leitura e renovarem a admiração pelas incomparáveis contribuições daqueles que aprofundaram o progresso social e cultural de humanidade. A celebração teve origem na Catalúnia, onde se festeja o Dia de São Jorge, quando uma rosa é tradicionalmente ofertada a cada comprador de livro. "